As dores e delícias do home office

Maio 14, 2008

Eu estou montando uma empresa. Montando não, está montada, já existe perante a lei e o mercado, a todos os amigos, conhecidos e, pasmem, até perante a imprensa (isso é papo pra depois). Mas, por incrível que pareça, ainda estamos – eu e minha sócia – tocando a vida em nossos home offices.

Home office é um termo bastante safado pra explicar “escritório montado em casa”. Por mais que o uso do inglês tente atribuir certo profissionalismo e charme ao método, qualquer um já desconfiou que home office pode muito bem ser um completo badauê. Mesmo quando o dono do escritório é sério, profissa, responsável. Como eu.

Os mais próximos sabem que nossos home offices são circunstanciais, nunca foram a intenção de fazer uma empresa moderninha-flexivel. Estamos há 2 meses procurando um espaço comercial e há um mês negociando uma casa no Humaitá. Mas aluguel é selvageria e, quando a casa é boa, o aluguel é alto. Quando a casa é boa e o aluguel é médio, o corretor é fraco. Quando a casa é boa, o aluguel é médio e o corretor é correto, o proprietário é mala. E por aí vai.

Isso explica o fato de ainda estarmos em negociação. E, enquanto negociamos, a rotina doméstica de trabalho vem nos apresentando suas dores e delícias: quando conto para algum desavisado o meu esquema, os primeiros comentários são (é sério, estatisticamente, acontecem de 8 entre 10):

- que ótimo, que inveja poder trabalhar de casa.
- você vê Sessão da Tarde?
- com que roupa você trabalha?

Confesso que eu mesma me refastelo de poder, vez ou outra, assistir o Jornal Hoje inteiro. Ou de poder começar a responder email ainda de pijama. Ou de ir rapidamente até a geladeira e descolar um “almoço”. Mas os desafios são muito maiores que esses pequenos prazeres. Mal sabem vocês a falta que colegas de trabalho nos faz. Alguém pra ler aquele email polêmico que você vai ter que mandar de qualquer jeito. Alguém pra te oferecer um bombom alpino às quatro da tarde. Alguém pra te exigir, mesmo que veladamente, disciplina, postura, horário.

A dificuldade do controle do horário talvez seja a pior de todas. É uma força perigosa de dupla ameaça: o relaxamento e a dedicação desmedida. Ou alguém passou batido do trecho “responder email ainda de pijama”? Ah, que inocência. É nesse “conforto” que mora um doce veneno. A comodidade é tão grande que passa a se espalhar e desconhecer limites. Email ao acordar, email antes de dormir, email enquanto vê o American Idol. Tá tudo dominado.

Ok, essa é mesmo uma questão de regulagem e a prática deve evitar certas auto-armadilhas. Mas então, o que fazer sobre funcionários do lar e outros desvios de atenção? A minha diarista não sabe o que é home office. Já expliquei com diferentes abordagens, e ela própria acompanhou a mudança do ritmo da casa, já sabe que vez ou outra eu vou sair em disparada pruma reunião e tal. Mas é inconcebível para ela a idéia de que estou em casa, mas não estou “em casa”. Ela me vê no escritório e automaticamente entende que estou disponível. Ou seja, todas as pequenas decisões que ela faria arbitrariamente dentro da casa transformam-se em consultas. “dona vivian, isso aqui pode jogar fora?” / “dona vivian, tiro a roupa de cama pra lavar essa semana?” / “dona vivian, esse potinho aqui ficou rachado depois que eu guardei com os outros, vou passar pro armário menor, tá?” . Passei a usar um artifício que detesto, mas não tive mais como evitar: agora eu fico muda. Aliás, faço um fade out. Respondo a primeira pergunta sem economia de palavras. Respondo a segunda laconicamente, ou com pouca abertura de boca. E a terceira já guardo só para mim. Fica assim, telepática.

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3 Comments Add your own

  • 1. Lu Pszczol  |  Maio 16, 2008 at 5:54 pm

    Ufa! Finalmente consegui um tempinho e agora estou mais tranquila… Desde ontem, quando li seu e-mail eu tava me roendo de curiosidade pra entrar aqui e ler tudo! Adorei! Especialmente esse post sobre home office. Muito bom! Seu blog já tá adicionado aos meus favoritos : )

  • 2. pedro dale  |  Julho 23, 2008 at 4:03 pm

    auhauhaa, muito bom Vivi. Trabalhar em casa deve ser uma dureza. Eu tenho total certeza de que eu não conseguiria. Acho que a convivêcia com os colegas de trabalho é essencial! Tem o alpino como vc mesmo disse, uma piada, um comentário…enfim, pelo menos vc tem uma mesa de trabalho bacanérrima que seu marido te deu, né?
    Beijos!

  • 3. vivian  |  Julho 24, 2008 at 9:33 am

    Pô, a MAIS maneira das mesas. É praticamente o lugar que eu mais frequento no dia, tinha que ser linda!

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